
Novela em vinte capitulos.
Capitulo três.
Quando Dona Preta entrou naquele comôdo três por dois, o cheiro meio
incenso de mirra, meio carne queimada, deu lugar a um odor mais leve,
algo citrico ou mais fresh, sei lá.
Ela se sentou na minha frente e disse: se aveche não.
Eu pensei: me avechar do quê? Mas ela disse. Tava na cara que via mais
do que eu, ou melhor , via nada. Mas eu nunca dou o braço a torcer
nestas coisas. Fico sempre esquisito, com este quite no olho esquerdo,
sinal clássico de nervosismo.
É mulher? Foi direto ao ponto. Sem eira, nem beira.
É não. falei tácito. É dinheiro… quer dizer, é meio mulher, meio dinheiro….
Robaram ocê menino… Falou com tanta convicção que eu pensei que havia mesmo sido furtado…
Não… eu acho que não…
Oxê… então quié? disse estranhamente contrariada.
Bom… quer dizer, é o seguinte. Eu quero saber quanto eu preciso para
me casar com a minha noiva… fui claro e decidido. A dúvida vinha me
atormentando a meses. Eu sempre guardei meu dinheiro para me casar com
Joana, desde o tempo da Vl Matilde, quando a gente ainda tinhas os 14,
15 anos. Comprei carro, já dei entrada em uma casa, trabalho no mesmo
lugar a 8 anos, mas sempre temo: se eu casar com Joana, vou ter como
sustenta-la?
A menina é rica é? Perguntou como se ouvisse meus pensamentos.
Não… quer dizer, não é pobre, porém não é rica…
Ela olhou para fora por um momento. O Metrô passou bem ao lado da
janela, quase chegando na estação Arthur Alvim. “Vou pegar ônibus
lotado para voltar” pensei enquanto dona preta olhava para fora da
janela como se estivesse em transe.
Quando o Segundo metrô passou, dona preta saiu do transe. Olhou para
mim e jogou os buzios. Olhou para eles e fez careta. Olhou para mim e
olhou para os buzios de novo.
Casa com essa moça não… os buzios tá falando. Moça é infiel, não dá para ser boa mãe para seus filhos e nem boa esposa.
Fiquei em choque. O que aquela mulher estava falando? Já levantei e
nervoso, defendi a honra de minha noiva. Dona Preta apenas cruzou os
braços e me olhou com seriedade. Sai de lá batendo as portas.
Não quis mais saber destas coisas. Casei-me com Joana alguns meses
depois, por insistência da familia dela. Alguns anos depois, já com os
filhos crescidos descobri que Dona Preta estava certa, Joana era uma
mulher leviana e constantemente me traia.
Mas não pensei em voltar e pedir desculpa para Dona Preta não. Ela nem sequer me reconheceria, depois de tantos anos.
Sai do emprego que permaneci por 18 anos. Com o dinheiro da rescisão,
comprei um apartamento perto da estação Arthur Alvim. E todos os dias,
a tardinha, olho para fora e vejo os metrôs passando. Tenho certeza que
um dia descubro, o que foi exatemente que Dona Preta viu para mim…