São Paulo | A dona do bonde
Novela em vinte capítulos
Capitulo quatro
Dona Ivanir pegava o bonde só para sentir a mão dos rapazes tocar na sua quando eles desciam ou subiam. Isso foi em uma outra época como ela diz. Hoje as coisas são bem mais diferentes. Nem bonde tem.
Certa vez, em seu velhos tempos de menina, um rapaz bem apessoado e muito bonito, fez bem mais que pegar em sua mão. Ele conversou com ela. Perguntou em que grupo escolar ela estudava. A chamou de broto e a deixou ruborizada. Tinhas seus 17 anos e nunca um rapaz foi tão ousado assim.
Desceu com ela na rua dos trilhos. Ela já ficava nervosa com tamanha indescrição. Quis se livrar dele mas ele só desistiu depois de leva-la para casa. No dia seguinte, lá estava ele, de cabelos finamente cortados e um buquê de flores entre os braços. Quis logo falar com o pai e pediu naquele dia mesmo a mão de sua filha em casamento. Era de boa familia, o pai tinha comércio logo alí na rua da mooca e era velho conhecido do pai da moça.
Marcou-se o casamento para o mês das noivas, na Igreja do Bom Pastor. Todos foram convidados e aquele seria o casamento do ano!
Mas dona Ivanir não queria casamento nenhum. Ela gostava mesmo era de pegar o bonde para sentir as mãos dos rapazes nas suas. As amigas disseram que aquilo não era de todo mal, e mesmo casada podia andar de bonde. Mas Ivanir não quis. Bateu o pé, e o noivo saiu da casa bufando de raiva. “O melhor partido da região!” disse o pai. A mãe chorava e chorava na cozinha. Ivanir, só queria ir dormir logo para amanhecer o dia e pegar o bonde para o colégio.
E pegou o mesmo bonde durante mais dois meses. Tiraram o bonde das ruas. E Ivanir ficou inconsólavel. Os ônibus novos era barulhentos, cheios de janelas e portas que de nada serviam, pensava ela. Tinha tanto odio dos ônibus que só saia de casa á pé ou de carro.
Mas assim aconteceu. E o bonde que dona Ivanir pegou depois disso foi da idade, que a levou até a solteirice de seus 40 anos.
Mas dona Ivanir não reclama. Casou com o Antenor, o cobrador mais conhecido da linha Penha-Lapa, que hoje não existe mais. Casou com o cobrador, mas ainda não perdoa os malditos ônibus “Richa antiga. Deixa eles lá que eu fico aqui.” É o que diz para os que estranham.
Dona Ivanir ainda dá uma risadinha quando um homem pega em sua mão, como o médico ou o enfermeiro. Mas isso ela não fala alto. Os tempos são outros, e nem mais bonde tem.
Março 25, 2007 às 4:23 am
Vim aqui conhecer Dona Ivanir. Meu bonde é uma praia com muita areia vazia, tartarugas, e outras coisas que não existem mais. Entendo ela.
Bjks.
GH